Centro de Atenas a fumo e fogo num dia de viragem para o país

Edifícios públicos, incluindo dois cinemas históricos,  e diversos estabelecimentos ainda ardiam durante a noite de no centro  de Atenas, enquanto nas imediações os deputados prosseguiam a discussão  e votação do novo acordo com a troika internacional.

Os despojos dos violentos confrontos espalhavam-se por diversas ruas  que desaguam na praça Syntagma, onde no final da tarde uma manifestação  convocada pelas duas centrais sindicais e a generalidade das formações de  esquerda foi subitamente dispersa pela polícia.

Grandes vasos partidos em cacos nas ruas, com a terra espalhada, laranjas  arrancadas das árvores, caixotes de lixo derrubados, montanhas de dejetos  a fumegar no meio das artérias e que se acumularam devido à greve geral  cumprida na sexta-feira e no sábado, pedras, estruturas de madeira arrancadas  das esplanadas, tudo serviu para os confrontos entre a polícia e os grupos  de contestatários organizados, que entraram em ação quando o grosso da manifestação,  com gente de todas as idades e condições, ia sendo expulsa da praça Syntagma,  com o Parlamento ao fundo.

“Foi a maior manifestação desde os grandes protestos de junho de 2011,  durante o movimento dos indignados”, refere Petrus, um médico de meia-idade  que desta vez decidiu participar no protesto.

Como medida de prevenção, trouxe um frasco onde estava diluído um produto  que combate as dores de estômago, mas que os manifestantes espalham pela  cara para se protegerem dos efeitos do gás lacrimogéneo. Máscaras, cachecóis,  ou este estranho líquido de cor creme, que espalhado pelas caras de centenas  de pessoas parecem recordar um desfile de mascarados, tudo serve para contrariar  as investidas policiais.

Seis horas após o início dos confrontos, o irritante efeito do gás lacrimogéneo  ainda pairava no centro de Atenas, enquanto grupos de polícias continuavam  a percorrer com capacetes e cassetes em punho pelas ruas laterais, para  afastar os grupos de jovens que insistiam em lançar provocações, protegidos  nas esquinas mais escuras.

“Hoje, a polícia foi particularmente agressiva. Pensávamos que não iam  intervir na manifestação, foi uma ação inesperada e que pode significar  uma viragem”, admite Haritini, uma amiga de Petrus, visivelmente nervosa  e quando já se encontrava numa praça mais segura, a caminho da Plaka, a  velha zona histórica da cidade dominada pelo Pártenon. Mas sempre com as  nuvens do irritante gás mais perto, entre o som de petardos, sirenes de  ambulâncias e de carros de bombeiros, ou cocktails molotov.

A polícia montou uma gigantesca barreira em torno da praça dominada  pelo Parlamento, e os confrontos prosseguiram nas avenidas e ruelas circundantes  para onde foram despejadas milhares de pessoas que se acotovelam, mas sem  qualquer manifestação de pânico. Num jogo do gato e do gato, jovens de negro  e polícias agrediam-se mutuamente, com pedras.

“Marionetes de teatro”, gritava em direção ao Parlamento uma mulher  já idosa, de braço dado no marido, antes de virar para uma esquina lateral  e perder de vista o hemiciclo.

Mais de 100 mil pessoas preparavam-se para se manter frente ao Parlamento  e manifestar o seu descontentamento face às duras medidas de austeridade  na iminência de serem aprovadas. A polícia recebeu ordens para dispersar  o protesto gigante, e quando milhares de pessoas ainda se dirigiam a pé  para o local da concentração.

Para muitos gregos, esta noite significa o início de um novo momento  na agitada vida política do devastado país. Ninguém sabe como vai terminar.

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