Como ser um bom aluno apesar da crise

A primeira semana de aulas termina esta sexta-feira para milhares de alunos. Após o fim das férias, foi hora da adaptação ao ambiente escolar. Para a próxima semana já é tempo de voltar-se para os estudos. E, para isso, nada melhor do que ler «O Método Ser Bom Aluno – ´Bora Lá?», de Jorge Rio Cardoso, editado pela Guerra & Paz. Um livro dirigido para escolas, professores, pais e crianças, uma obra que vai facilitar a vida de todos…
Como é lógico, a crise que o país atravessa limita em muito o papel da Educação na sociedade. No entanto, Jorge Rio Cardoso recorda que «os países mais desenvolvidos são sem dúvida aqueles que melhores recursos humanos dispõem e esses provêm sempre de um sistema de ensino que promove um ensino com aprendizagens significativas». Portanto, e apesar de Portugal apresentar problemas em todos  os sectores, «nomeadamente na Educação», o que provoca «alguma desmotivação de muitos dos agentes», o autor de «O Método Ser Bom Aluno – ´Bora Lá?» defende que todos devem «lutar e crer que este é um momento que irá ser ultrapassado e que, no desenvolvimento das sociedades, não existe alternativa ao processo  educativo». Por isso, «toca a estudar…»
O livro destina-se a jovens entre os 14 e os 20 anos, mas considera que as estratégias nele apresentadas possam ser seguidas por alunos mais novos? E, neste caso, com a ajuda dos pais?
Sim,  os  princípios  presentes  no  método, E que passam, por exemplo, por princípios de estímulo da memória lógica (em prejuízo da mecânica), podem e devem ser seguidos por jovens com idades inferiores a 14 anos. Nesse caso, o acompanhamento  dos  pais  é aconselhável. O método procura que o aluno tenha  regras  e disciplina. Esse incutir de regras deve, naturalmente, ser passado, desde  tenra  idade,  pelos  pais em  muitos  outros  contextos (arrumação do quarto, ajuda em tarefas domésticas).
Ao longo da sua carreira já assistiu a alguma destas metamorfoses?
Sim, muitas vezes. Até porque, desde 2008, que tenho promovido acções sobre a metodologia aconselhada no livro. Algumas dessas «metamorfoses», como lhe chamou, estão retratadas na quarta parte do livro.
Quando se depara  com  um  aluno  que não sabe estudar, mas que tem condições para chegar mais longe, tenta «convertê-lo»?
Sim,  é  esse  o  papel de um professor: ganhar cada vez mais jovens para o estudo e para a aprendizagem com conteúdos que lhe vão ser úteis ao longo da sua vida.
Como refere no livro, cada caso é um caso e há métodos e métodos, mas há  uma  característica que é semelhante a todos, a persistência. Acha que esse  é  um  problema  dos  nossos  jovens? São pouco persistentes e ambiciosos?
Eu  talvez  não  generalizasse. De  facto, o mundo de hoje, em concreto as novas tecnologias,  são muito chamativas e podem provocar algum alheamento de  outras  tarefas e o estudo é uma delas. No entanto, eu entendo que isso deve  constituir  um estímulo para todo o sistema educativo para que, nesse campo, torne  o  ensino  cada  vez  mais  apelativo, usando, precisamente, elementos interactivos.
Dou-lhe  um  exemplo.  Imagine  que o professor quer explicar a dinâmica de grupos. Poderá  limitar-se  a expor essa mesma matéria. Outra alternativa, que provavelmente cativará mais alunos, poderia passar por visualizarem um filme sobre esse assunto, por exemplo, o filme «Capitães da Areia» (baseado no  romance  de  Jorge  Amado). Acabado de ver o filme, poder-se-ia discutir quem era o líder, que estratégias ele usou, se era um líder democrático ou, pelo contrário, autocrático. Por fim, sistematizaria toda a matéria.
Esta  segunda  estratégia  baseia-se num conceito usado no livro que são os chamados «mapas  mentais»  em  que  o  aluno  visualiza, mentalmente,  os conceitos e, dessa forma, aprende-os melhor e, compreendendo-os, acaba por os memorizar mais facilmente.
Pais demasiado exigentes também podem ser contraproducentes e criar nos filhos  alguma resistência  aos estudos? Como se devem os pais «controlar» nessas situações?
Aqui  deve funcionar a regra do «bom senso». Os alunos não são todos iguais e há, obviamente, alguns mais responsáveis do que outros.
A  exigência  dos  pais  não se deve limitar a «exigir resultados», mas sim cooperar na obtenção  dos  mesmos.  A  palavra-chave  aqui deverá  ser «responsabilização».
Resultados  melhores  por parte do aluno levarão a mais autonomia por parte dos pais e vice-versa.
Resumindo: exige-se uma presença constante dos pais, que pode baixar se os resultados do educando forem melhorando.
O que é que o fez desejar ser um bom aluno? Quanto tempo levou a passar de sofrível a invejável?
Em  primeiro  lugar ver os meus pais felizes, pois os meus maus resultados deixavam-nos mesmo  muito  tristes.  Depois,  porque  percebi que melhores resultados  poder-me-iam  levar  a  um emprego melhor e, dessa forma, a uma vida mais preenchida.
A «metamorfose» durou um ou dois anos. Embora, com o continuar dos anos, os resultados  fossem  sempre  melhorando, fruto da ultrapassagem de erros que sempre se cometem.
Qual foi o método que resultou consigo? Qual foi a sua estratégia?
O método foi,  em  parte, aquele que preconizo no livro. Nessa altura não tinha  sistematizado o  método, mas procurei dividir esse «monstro» que, na altura, era o estudo, em pequenas etapas que, sequencialmente, procurava resolver.
Em  termos  de  estratégia, passei a fazer um estudo contínuo (e não deixar tudo para a última da hora), a organizar-me melhor e a auto-responsabilizar-me pelos resultados.
Se me permite responder com uma nota de humor: a ideia de pôr as culpas nos outros passou a ser uma cena que deixou de me assistir!
Um bom professor pode despertar um bom aluno «adormecido»?
Pode  e  deve, esse  é  um  dos  seus  papéis principais. Aquela ideia do Professor que sabe muito de um assunto e vai à aula para «despejar» esses conhecimentos  é  algo  que está em desuso em todos os modernos sistemas de ensino.
De  um  bom  professor  exige-se, tal como explico no livro, várias coisas, como  por exemplo: que promova a autonomia e aprendizagem activa do aluno.
Mais  do  que  ensinar,  o professor deve dar ao aluno a possibilidade de o fazer,  num futuro próximo, de forma activa e autónoma; por outro lado deve promover  a  auto-estima  dos alunos, nomeadamente através de palavras de incentivo, não  inibindo as perguntas (pelo contrário, deve estimulá-las).
Deve  ainda  ter  um  espírito  de  diálogo  e promover práticas reflexivas partilhadas com todos os seus alunos, sobretudo com os que, por questões de feitio ou outras, menos participam.
O  bom rendimento escolar também depende das escolas? Como se promove essa  estratégia? E em que medida é necessária a articulação e colaboração entre escolas e pais?
Sim,  o bom rendimento depende também das escolas. A escola deve transmitir ao  aluno «emoções positivas». É um lugar que ele deve entender como seu e que por isso mesmo deve estimá-lo.
As  escolas têm ao seu dispor estratégias que podem levar toda a comunidade escolar (alunos,  pais,  professores  e  funcionários) a empenharem-se no projecto  da  Escola.  No livro  cito vários bons exemplos, nomeadamente o projecto  «Mar  Adentro»,  de  uma Escola no Funchal, em que os resultados do projecto foram extremamente animadores.
A  articulação  entre escola e pais é crucial. De resto, no livro aconselho vivamente os pais a envolverem-se não apenas na sua relação com a directora de  turma,  mas,  também,  na Associação de Pais e em todas as actividades promovidas  pela Escola, nomeadamente aquelas  que  têm  a  ver  com  a Responsabilidade Social.

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