Cavaco Silva: “Desejava que a troika fosse embora mais cedo”

Cavaco SilvaCavaco Silva recorda as intervenções anteriores do FMI e conclui que a actual “receita é muito pior”. Em entrevista  ao “Expresso”, diz que lhe “faltam algumas qualidades dos políticos” e que a intriga o cansa.

O Presidente da República confessa que “desejava que a troika fosse embora mais cedo”, antes de 2014 como está previsto.Em entrevista ao jornal “Expresso” deste sábado, Cavaco Silva recorda as intervenções anteriores do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Portugal, em 1978 e 1983, e conclui que a actual “receita é muito pior”.O chefe de Estado refere que, por estar na União Europeia e na moeda única, Portugal “não controla” agora “a moeda nem os instrumentos de política monetária e cambial, está sujeito a restrições de política orçamental e não pode inflacionar”.Sobre o processo de privatizações, Cavaco Silva argumenta que “chegámos a uma situação em que não há alternativas. Em outras circunstâncias não se estaria a falar da privatização da TAP, embora deva dizer que estas privatizações já vêm do governo anterior”.Numa altura em que a concessão da RTP está em cima da mesa, o antigo primeiro-ministro diz que também é preciso consenso e alude à Constituição: “se não me engano, diz que cabe ao Estado garantir a existência e o funcionamento de um serviço público de televisão. Esperemos que isso seja respeitado”, avisa.Cavaco Silva reforça que a sua “prioridade será sempre a estabilidade política”, mas também diz que a “Constituição não está suspensa”, para justificar o pedido de fiscalização sucessiva do Orçamento do Estado para 2013.
Tal como na mensagem de Ano Novo, deixa entender que uma crise política seria má, lembra que houve eleições há ano e meio, por isso os portugueses devem pensar o que significa juntar uma crise política grave a uma crise económico-financeira gravíssima. Mas o Presidente da República também diz que as sus competência não lhe permitem demitir um Governo por falta de confiança política.
Sublinha que não gosta da expressão “refundação do Estado”, alerta para a necessidade de haver consenso político e social sobre essa reforma, um debate que tem de ter em conta a escassez de recursos.
O Presidente, que no primeiro mandato alterou 380 diplomas, 22% do total apresentado pelo Governo, fala também das relações discretas que tem com o executivo de Pedro Passos Coelho. Lembra que nunca houve fuga de informação das conversas com o primeiro-ministro, mas mais à frente é o próprio Cavaco que revela que nas reuniões com José Sócrates alertou o então primeiro-ministro sobre a dinâmica insustentável da divida externa e pública.
“Faltam-me algumas qualidades dos políticos” Nesta entrevista por ocasião dos 40 anos do semanário “Expresso”, Cavaco Silva admite que lhe faltam “algumas qualidades dos políticos” e que a intriga o cansa.Relativamente ao caso BPN e à polémica em torno das suas aplicações financeiras naquele banco, recorda que já prestou esclarecimentos no passado e deixa uma certeza:  “não me incomoda, estou seguro da verdade dos factos e da minha honestidade.”Cavaco Silva declara que , depois de dez anos no Governo, “nunca ninguém chegou a Presidente da República” com a sua  experiência. Sobre os tempos de primeiro-ministro afirma: “como posso não ter orgulho dos meus governos?”.
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