Ramos-Horta: Resolução dos conflitos depende muito das lideranças nacionais
O ex-Presidente timorense José Ramos-Horta defendeu que as lideranças nacionais têm um papel fundamental na resolução de conflitos nos respetivos países, devendo promover a reconciliação entre beligerantes e perdoar os invasores, tal como aconteceu entre Timor-Leste e Indonésia.
O atual representante do secretário-geral da ONU para a Guiné-Bissau falava na sexta-feira à noite sobre o tema “Os Desafios da Paz e Construção do Estado Democrático – O Papel da ONU e dos Parceiros Regionais”, na Conferência “Desafios Africanos”, promovida pela Presidência cabo-verdiana para assinalar os 50 anos da Organização da Unidade Africana (OUA).
Refletindo sobre conflitos atuais, Ramos-Horta lembrou os casos da Síria e do Afeganistão, para explicar que o Conselho de Segurança das Nações Unidas só pode intervir quando houver unanimidade dos seus membros.
No caso de Timor-Leste, de que foi ministro dos Negócios Estrangeiros (desde a independência, em 2002, até 2006), primeiro-ministro (2006/07) e Presidente (2007/12), Ramos-Horta recordou que a solução da questão da independência dependeu sobretudo da vontade determinada e expressa dos líderes locais em pôr fim ao conflito com a Indonésia, com que mantém, hoje, as melhores relações bilaterais.
O também Nobel da Paz (1996) lembrou que a libertação de Timor-Leste veio acompanhada também de um esforço ímpar na história de reconciliação com o poder instituído na Indonésia após a queda da ditadura.
Graças a isso, admitiu, a liderança timorense nunca se rendeu à violência gratuita contra indonésios em 24 anos de luta para a emancipação, assim como não se têm registado atos violentos praticados contra timorenses na Indonésia.
Das Nações Unidas, frisou, Timor-Leste conheceu muita solidariedade e muita compreensão, o que permitiu a realização, em tempo recorde, do referendo, do envio da força de intervenção de paz ou a chegada dos “capacetes azuis” da ONU.
“Timor-Leste pôde mobilizar uma onda de solidariedade internacional sem igual e que começou em Cabo Verde, em 1977, e que prosseguiu com os esforços de todos os países lusófonos para manter a questão timorense na ordem do dia e na agenda das Nações Unidas”, salientou, mostrando-se “grato” pela solidariedade de décadas.
O que aconteceu com Timor-Leste pode transpor-se para África, frisou.
O ex-Presidente timorense mostrou-se grato por toda a solidariedade prestada a Timor-Leste durante décadas, uma das razões que leva o país a, com os seus “parcos recursos”, querer retribuir de alguma forma.
Na conferência participaram também os ex-presidentes de Cabo Verde António Mascarenhas Monteiro e Pedro Pires (este através de uma mensagem lida por um seu colaborador, dado encontrar-se na África do Sul), e o atual, Jorge Carlos Fonseca.




