População de Poiares pede aos vizinhos para ir buscar medicamentos

Desde sempre habituada com uma farmácia junto a casa, a população de Poiares sentiu “muito a sua falta” quando encerrou e desdobra-se agora em viagens ou pedidos a vizinhos para que lhes tragam os medicamentos da cidade da Régua.

A aldeia de Poiares saltou para as luzes da ribalta quando foi o palco para a filmagem da telenovela “Amanhecer” que há uns anos passou num canal de televisão.

Anos depois, a população local sente que lhe estão a “fechar as portas aos poucos”.

“É uma aldeia muito bonita e tínhamos aqui tudo. Neste momento estamos a caminho de ficarmos sem nada. Primeiro foi o posto da GNR, a farmácia e agora até nos querem fechar a escola”, afirmou Celina Quintela.

Adília Santos tem 78 anos e desde sempre se lembra de ter uma farmácia na aldeia. Este estabelecimento fechou há cerca de um ano em Poiares.

Desde então Adília socorre-se da neta que estuda na cidade da Régua e lhe traz os medicamentos que precisa.

“Agora que está de férias mando vir por uma senhora que trabalha na junta. Mas continua a fazer-nos muita falta. Então, a gente se lhe der uma dor de cabeça ou uma dor de barriga temos que ir a correr para a Régua”, salientou.

Com um encolher de ombros, a septuagenária lamenta ter de estar sempre a “incomodar” outras pessoas com “pedidos” e “favores”.

“A senhora não nos leva nada. Mas sempre é trabalho que lhe estamos a dar, não é?”, referiu.

Adília Santos garante que “eram muitos” os clientes da farmácia, até porque estava instalada ao lado da extensão de saúde de Poiares e as pessoas das aldeias vizinhas que vinham ao médico aproveitavam para ali comprarem os medicamentos.

Segundo os últimos censos (2001), esta freguesia possui cerca de 900 habitantes.

Maria José Pires, 82 anos, não ficou muito preocupada por a farmácia ter fechado, até porque diz que se fosse por ela os “médicos morriam à fome”, já que garante ter uma “saúde de ferro”.

No entanto, diz que está muito triste por ver tudo a fechar na aldeia. “As coisas fogem e a vida desaparece”, salientou.

“Essa aí não precisa mas vem ali uma que compra muitos medicamentos”, refere Adília.

Emília Araújo Silva para, pousa o cesto carregado de couves e começa logo a fazer contas.

“Ainda ontem de manhã fui com o meu marido à Régua. Dei quase 40 euros e ainda me faltava um medicamento, porque a conta passa quase sempre dos 50 euros. São muito caros os medicamentos que tenho que comprar”, salientou.

Emília explica que controla os medicamentos e diz que é o marido que normalmente os compra quando vai ter a sua consulta mensal na Régua.

“Mas é uma coisa que faz muita falta, muita falta, muita falta. Havia qualquer coisa a gente vinha aqui e as portas estavam sempre abertas para quando precisávamos e às vezes só depois é trazíamos a receita. Tudo faz muita falta e só quando as coisas saem, sentimos o quanto fazem falta”, referiu.

Também Celina Quintela disse que é o seu marido que vai à Régua comprar os medicamentos ou então manda vir pelo táxi. “Causa muitos transtornos”, rematou.

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