Tolerância de ponto, obviamente

A visita de Bento XVI a Portugal tem enorme relevância social e mobilizará dezenas de milhares de pessoas. Nenhum outro líder religioso seria capaz de fazer uma visita com o mesmo impacto. Logo, ao dar tolerância de ponto

exclusivamente à visita do Papa e não à visita do simpático Dalai Lama, como não daria a hipotéticas visitas do maluco do pastor Pat Robertson ou do aldrabão que gere dos negócios da Igreja Universal do Reino de Deus, o Governo prova que é sobretudo sensível à dimensão social do evento e que a dimensão religiosa não é razão suficiente para justificar a tolerância de ponto. O argumento não chega sequer a ser tortuoso: não dar tolerânca de ponto é que seria uma demonstração de falta de laicismo. Afinal, o laicismo maduro quer-se magnânimo e não ressabiado. Trivial.

Mas se dúvidas ainda houvesse, o simples facto de o patronato e os sindicatos se unirem a uma só voz contra esta tolerância de ponto é esclarecedor. Quando inimigos viscerais estão de acordo, ou a posição é uma lapalissada – creio que Carvalho da Silva e Francisco Van Zeller defenderão que o movimento do Sol em torno da Terra é aparente – ou então estão errados. Enfim, esta é uma regra que admite excepções, mas serve como princípio norteador.

Por fim, desafio os leitores a imaginar um outro acontecimento extraordinário mais merecedor de tolerância de ponto do que a visita de um Papa a um país de cultura esmagadoramente católica. Como é pouco provável que se lembrem de algum, quem está contra esta tolerância de ponto só pode estar contra todas as tolerâncias de ponto extraordinárias (não incluo as habituais).

Infelizmente, nós, os ateus não praticantes, acabamos por ser oficiosamente representados pelos ateus militantes, que nestas alturas tendem a fazer demasiado barulho.

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