Kadhafi faz discurso à Nação, líder líbio diz-se disposto a morrer como um mártir

O líder líbio Muammar Kadhafi dirigiu-se hoje à nação num discurso que foi transmitido na TV estatal. Numa comunicação bem mais extensa que a transmitida ontem, Kadhafi mostrou-se indisponível para abandonar o país e diz-se disposto a morrer como um mártir.

Num tom magoado e indignado, o líder líbio dirigiu-se ao seu povo dando conta dos contornos da situação actual em vários pontos do país. Kadhafi disse que se considera “líder da revolução e não um Presidente que possa abandonar o cargo”. O dirigente líbio assegurou ainda que está disposto a lutar até à última bala.

Nesta comunicação, Kadhafi tentou dissuadir a população a prosseguir com as manifestações e protestos anti-regime e acusa os Estados Unidos de estarem a manipular os movimentos contestatários. O líder líbio garante que jamais cederá às forças ocidentais e critica em particular a acção das autoridades norte-americanas, às quais garante que nunca se submeterá.

O Presidente da Líbia, confrontado com uma revolta popular sem precedentes, ameaçou os manifestantes armados com a “pena de morte” e acusou ainda as cadeias de televisão estrangeiras, dizendo que “estão a trabalhar para o diabo”.

Kadhafi distinguiu a situação no seu país com as revoltas na Tunísia e Egipto. “Os jovens que protestam não são culpados”, afirmou, e a sua atitude é “normal” após o que sucedeu nos países vizinhos. No entanto, acusou as pessoas “más” que distribuem “dinheiro e drogas” aos jovens.

O “líder da revolução verde” escolheu um pódio colocado à entrada de um edifício bombardeado, provavelmente a sua antiga residência de Tripoli bombardeada por aviões norte-americanos em 1986, e que não foi reconstruída para recordar o ataque, no qual morreu uma sua filha adoptiva.

Repórter da CNN relata ataques a civis e fuga de egípcios

O correspondente da CNN Ben Wedeman é o primeiro repórter televisivo a conseguir entrar na Líbia. Com uma longa experiência em reportagem na região, Wedeman relata com precisão os acontecimentos que se sucedem em catadupa no país de Muammar Kadhafi.

Várias testemunhas em Tripoli contaram ao repórter da CNN que aviões de guerra e helicópteros sobrevoam a capital líbia e disparam sobre civis, uma estratégia para conter os protestos anti-regime já condenada também pelo próprio secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

Wedeman dá, no entanto, conta de um apoio crescente dos militares aos grupos de contestatários. O repórter dá o exemplo de dois pilotos de Mirage F1 que preferiram desertar para Malta a acatar as ordens oficiais e disparar sobre civis. Esta é uma informação já confirmada pelas autoridades maltesas.

O correspondente da CNN relata ainda o drama dos cidadãos estrangeiros em fuga. A maioria das viaturas que circula nas estradas da Líbia pertence a egípcios que querem deixar o país o mais rapidamente possível. Guardas fronteiriços disseram a Wedeman que cerca de 15 mil cidadãos egípcios terão abandonado o país só nesta segunda-feira. Estima-se que vivam na Líbia entre 2 a 3 milhões de egípcios.

Muammar Kadhafi, o “guia” no fio da navalha

Após a abertura ao exterior, depois de mais de uma década a viver sob a acusação de apoiar o terrorismo internacional, o regime de Kadhafi está agora no fio da navalha, sobretudo depois de repressão militar e policial que já provocou mais de 200 mortos no país nos últimos dias. Homem austero, sempre muito preocupado com a sua segurança pessoal, Kadhafi recusa a “hospitalidade ocidental” e sempre que se desloca ao estrangeiro, causa “dores de cabeça” ao Protocolo do país de destino, pernoitando na sua tradicional tenda, igual à que mantém severamente guardada no deserto, 200 quilómetros a sul de Syrte, a sua cidade natal, a leste de Tripoli.

No plano internacional, Kadhafi – 69 anos e há 41 anos no poder, o que o torna o “decano” dos chefes de Estado de África – tem assumido posições dúbias, que ora suscitam a troça internacional, vinda do Ocidente, ora a simpatia, maioritariamente africana, com muitos países a verem no líder líbio ainda o tradicional “amigo”, que os ajuda financeiramente sempre que é necessário.

Biografia
Filho de beduínos nómadas, Muammar Kadhafi, nasceu a 07 de junho de 1942 e ascendeu ao poder a 01 de setembro de 1969 através de uma sublevação em Sheba, 800 quilómetros a sul de Tripoli, derrubando um regime monárquico em que, argumentou na altura, reinava a corrupção de uma aristocracia decadente ligada ao capital estrangeiro.Em 1966, quando estudava “técnicas militares” em Londres e inspirado no êxito de Gamal Abdel Nasser no vizinho Egipto, Kadhafi fundou a União dos Oficiais Livres (UOL) e, de regresso a Tripoli, o então tenente continuou o trabalho conspirativo no exército, que culminou com a chamada “Revolução Verde”.

A Líbia de Kadhafi

O Conselho da Revolução entretanto criado, liderado pelo próprio Kadhafi, proclamou um país muçulmano, “nasserista” e socialista, pondo imediatamente em prática um plano de eliminação das bases militares norte-americanas e inglesas existentes.

Pouco depois, é criado o Conselho Geral do Povo, com 112 membros, o órgão máximo do governo do país, em que ficou definido que chamar Presidente a Kadhafi era “apenas” uma afronta ao conceito de Estado, pois toda a hierarquia do Estado está num plano horizontal.

A aparentemente incontestada sucessão do líder líbio foi atribuída ao terceiro dos seus sete filhos da sua segunda mulher, Seif Al-Islam Al-Kadhafi, que assumiu funções de presidente da Fundação Kadhafi para os Direitos Humanos e da Libian Investment Authority e da National Oil Corporation.

Conformado com a necessidade de o país abrir a um modelo político e económico mais ocidentalizado, Kadhafi acabou por ceder há quase uma década, o que permitiu a entrada de dezenas de empresas estrangeiras que, juntamente com companhias locais, passaram a participar ativamente no desenvolvimento da Líbia.

Sob este fundo de abertura ao exterior, a Líbia, um dos principais produtores mundiais de petróleo, lançou em 2002 um vasto programa de desenvolvimento de infraestruturas, avaliado, na altura, em 35 mil milhões de dólares, que subiu para 80 mil milhões em 2005 e para mais de 120 mil milhões em 2009.

As reformas não foram, porém, suficientes

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