Greve: das estações fantasma ao trânsito caótico
Estações de comboio quase vazias, taxistas à porta sem clientes e um trânsito automóvel infernal, causado pela ausência de comboios nas estações: eis o resultado da greve geral dos transportes, desta terça-feira.
Na estação de Benfica, em Lisboa, o dia começou de forma diferente. Às 9:00, em vez da usual azáfama, imperava uma calmia estranha. Pouco mais de duas dúzias de pessoas aguardavam pelos comboios, que tardavam em passar.
Atrasos esperados, garante Cadi Balde, que já estava informada da greve: «Eu já sabia que hoje ia ser assim, já ontem foi. Mas ontem havia muita gente aqui e muitos foram apanhados de surpresa. Hoje não está quase ninguém. As pessoas ficaram em casa ou então chegam aqui e desistem depois de umas horas há espera. Eu própria daqui a pouco vou-me embora, se não passar comboio».
Horas de espera na Linha de Sintra
Para os que não desistiram, as viagens de comboio traduziram-se em horas de espera. Na estação de Benfica, entre as 9:00 e as 10:00 não passou qualquer comboio em direcção a Sintra e para Lisboa apenas dois.
Numa estação quase deserta, durante mais de uma hora ecoou apenas o anúncio constante e monótono da greve, que entristecia os poucos que ainda aguardavam transporte.
O tempo passava e um percurso que habitualmente se faz em 10 minutos, entre Benfica e Monte Abraão esta terça-feira demorou mais de duas horas.
Um problema que se estendia ao longo de toda a linha de Sintra. Teresa Tavares demorou mais de três horas entre a Póvoa de Santa Iria e Monte Abraão, um trajecto que costuma fazer em 30 minutos.
CP encerra estações por segurança
A greve que trouxe tempo
Para os poucos que optaram por viajar de comboio a greve trouxe tempo. Em vez da habitual correria matinal, as pessoas aguardavam com calma junto ao bar que surgisse algum comboio.
Alguns aproveitavam para ler, outros para conversar, jogar ou namorar e houve até mesmo quem fizesse no bar da estação aquilo que faria no escritório.
José Patrício disse que aproveitou a meia hora de atraso do seu comboio para o Campo Pequeno para adiantar algum trabalho.
Com a mesa coberta de papéis, o funcionário do Ministério das Finanças confessou que a greve lhe trouxe alguns transtornos mas que ia aproveitar o tempo sem correrias para tratar de assuntos laborais.
«Já ontem tive alguns problemas. Iniciei a minha viagem às 9:00 e só cheguei ao trabalho às 11:30 e hoje estou a ver que vai ser igual, por isso adianto aqui as minhas tarefas».
A greve e os euros
Uma paralisação que trouxe tempo, mas que afugentou o dinheiro. Desde os funcionários da restauração aos dos transportes, todos se queixavam da falta de clientela.
No bar da estação de Benfica, a escassez de passageiros sentiu-se dramaticamente, lamentou Deonilde Marçal, empregada do bar.
«Há muito menos afluência hoje e isso, claro, prejudica o negócio» disse, acrescentando, «já estar preparada para o pior.»
Do lado de fora da estação, o negócio não corria melhor. Muitos foram os taxistas que se queixaram da falta de clientes e do trânsito caótico.
«Isto está o inferno. De Benfica a Tires demorei 40 minutos. Com a greve é só trânsito e clientes nada», protestou José Valente.
Armindo Joaquim reiterou as palavras do colega, assegurando que «hoje é só trânsito e nada para fazer porque não há clientes».
Falta de clientes e estações quase desertas num dia em que muitos foram obrigados a ficar em casa por não terem transporte para o trabalho. Um cenário que se deve manter até quinta-feira, quando termina a greve da CP.




