Carlos Marta: “A minha candidatura vai mexer com muita coisa”

Carlos Marta, autarca de Tondela é candidato à presidência da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). O ex-presidente da Associação de Futebol de Viseu, de 54 anos, licenciado em Educação Física, a par da política, tem um longo curriculum na área desportiva. Foi jogador de futebol de topo, responsável pela Direcção-Geral dos Desportos de Viseu, presidiu à comissão de Fiscalização do Euro 2004 e ao Conselho Superior de Desporto.

Carlos Marta prepara-se agora para as eleições de 10 de Dezembro, disputadas com mais dois candidatos, Fernando Gomes, presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional e António Sequeira, ex-dirigente federativo. O candidato deu a primeira grande entrevista depois do anúncio formal da candidatura, que decorreu em Lisboa.

O que vai mudar no futebol português se for eleito no dia 10 de Dezembro?

Vai mudar sobretudo a atitude em relação ao futebol nacional com uma grande preocupação pelo desenvolvimento de todo o futebol, não apenas o profissional. Se merecer a confiança dos diferentes delegados, irei procurar ser um presidente para todo o futebol, para clubes profissionais e não profissionais, para associações distritais, para árbitros, dirigentes, enfermeiros, médicos, treinadores, jogadores.

Ao longo da sua intervenção na cerimónia de apresentação da candidatura frisou isso mesmo. É uma indirecta a Fernando Gomes (outro candidato) pelo facto de ser presidente de Liga Portuguesa de Futebol Profissional?

Não. A minha candidatura não procura encontrar defeitos, dúvidas ou menos atributos nos adversários. É uma candidatura pela positiva e quero participar neste grande debate que vai decorrer apenas com o objectivo de tentar convencer os delegados de que tenho as melhores ideias, as melhores propostas, a melhor equipa e sobretudo a melhor liderança necessária para o desenvolvimento do futebol português.

O facto de ser um”homem do futebol” é uma mais-valia para capitalizar apoios?

Tenho estado afastado do futebol nos últimos anos por ter ocupado cargos de responsabilidade política. Numa altura em que surjo com esta candidatura é importante explicar às pessoas que não caí de pára-quedas e que tenho um curriculum nesta matéria, em particular no futebol, como muito poucos têm em termos nacionais.

Personaliza-se muito a direcção da Federação Portuguesa de Futebol no presidente, mas a equipa é fundamental para o funcionamento da federação. Passa ou não por aí o segredo para ganhar terreno nestas eleições, sabendo-se que Fernando Seara (natural de Viseu e presidente da Câmara de Sintra), o treinador Toni e Augusto Inácio já estão na equipa?

Para conseguir atingir as metas e os objectivos a que me proponho são fundamentais quatro premissas. O facto de o presidente estar a tempo inteiro na Federação, ou seja, onde houver futebol o presidente tem que estar, o que significa proximidade. O presidente tem que ter organização, aproveitar as potencialidades dos actuais funcionários da federação para que seja uma casa bem organizada. Depois, tem que ter uma equipa e espero escolher pessoas com experiência para os diferentes órgãos e para a direcção, para me ajudarem nesta tarefa. Finalmente, o presidente tem que ter capacidade de liderança e nos diferentes cargos que exerci tenho demonstrado que trabalho, que gosto de ouvir, que gosto de discutir, que gosto do contraditório, que faço boas equipas, que sou capaz de responsabilizar as pessoas que trabalham comigo e, desta forma, conseguir projectos que à partida parecem impossíveis e acabam por se concretizar por essa interligação, permitindo atingir esses objectivos.

Está habituado a ganhar nos projectos que tem liderado e participado. Este é o maior desafio da sua vida, ou o mais difícil?

Tenho consciência que é uma tarefa muito difícil até porque comecei relativamente tarde em relação aos restantes candidatos. Entrando a perder há condições para muito rapidamente conseguirmos empatar este desafio e na recta final durante a campanha de quase um mês poder conseguir ser presidente da Federação Portuguesa de Futebol. É um desafio extraordinário muito difícil e talvez o maior desafio pessoal que vou enfrentar nos próximos tempos.

Se ganhar a presidência da federação vai ter que abdicar da autarquia de Tondela.

Deixarei naturalmente a presidência da Câmara Municipal de Tondela.

Os tondelenses vão entender?

Tenho recebido das pessoas, das instituições, dos diferentes partidos políticos uma solidariedade e um apoio que queria registar, como um factor muito positivo. Os principais dirigentes dos partidos apoiam-me nesta candidatura, as forças políticas locais exactamente da mesma forma. As pessoas têm-me incentivado a não desistir. As pessoas de Tondela e da região percebem que é um dos seus que está a fazer uma disputa particularmente difícil do ponto de vista nacional, eventualmente, com muito menos recursos, meios e poder, mas que não teve medo e que vai enfrentar este desafio para deixar também bem representada a região onde está há muitos anos.

Não teme que a sua decisão possa ser vista como uma reforma dourada ao retirar-se da política?

Este desafio advém também do facto de os outros reconhecem que eu posso ser um bom presidente da federação e ser um bom líder do futebol nacional. Nesta altura entendi que estavam reunidas as condições. Não vejo que isso possa ser visto como uma oportunidade de obter uma reforma dourada, estou convencido que quando saísse da Câmara de Tondela teria condições para liderar outros desafios na minha vida pessoal e profissional.

Como por exemplo candidatar-se à Câmara de Viseu ocupando a cadeira que o autarca Fernando Ruas vai deixar vazia por força da lei da limitação de mandatos?

Se pensasse nisso não seria candidato à Federação Portuguesa de Futebol. Em relação a Viseu, dizem-me que essa matéria está definida. São avançados vários candidatos a quem reconheço competência e capacidade para liderar uma lista de um determinado partido e qualquer delas vai receber o meu apoio.

O resultado de 10 de Dezembro na federação não vai condicionar o seu futuro em termos políticos?

Este é um extraordinário desafio que considero muito difícil, mas nem tenho medo de perder, nem de ganhar.

Fernando Seara é uma escolha natural?

Tinha um compromisso pessoal com o dr. Fernando Seara, se ele entendesse em determinado momento ser candidato à federação, não seria candidato, mesmo que me desafiassem. Se tivesse sido candidato ter-lhe-ia dado todo o apoio exactamente como ele agora entendeu que me devia dar. Muitos não acreditavam que isso fosse possível, mas concretizou-se e quero agradecer a solidariedade que demonstrou para com o amigo de sempre Carlos Marta.

Surpreendeu-o o facto de a Associação de Futebol de Vila Real ter manifestado o apoio a Fernando Gomes depois de ter impulsionado a sua candidatura juntamente com o presidente da Associação de Futebol de Viseu?

O presidente da Associação de Futebol de Viseu tem tido um papel extraordinário, mas há mais de um ano que tinha sido convidado por uma outra associação a qual não vou revelar e na altura respondi que se reunissem condições poderia ponderar a possibilidade de me recandidatar. O processo evoluiu, apareceram outros candidatos, e duas associações e outras estruturas entrarem em contacto comigo no sentido de saber da minha responsabilidade. Todos devemos sempre respeitar a opção de cada um em determinado momento e respeito a posição de Vila Real.

Depois de algum mau estar na Associação de Futebol de Lisboa com a pressão dos clubes por apoiar a sua candidatura e o ruído no Sporting com o apoio pessoal de Luís Duque, tudo leva a crer que até Dezembro a disputa vai ser forte.

Acho estranho pensarem que não me podia candidatar. A minha candidatura é legítima. É natural que haja gente que discorda dela e gente que concorda. Vou tentar demonstrar nesta campanha que estou preparado para o desafio e quero ganhar pelas minhas qualidades, pelos projectos e pela equipa que tenho. Se assim for, é um bom salto para o debate do futebol e até para outras actividades. Agora, a minha candidatura veio mexer com muita coisa. O que à partida se previa que fosse um passeio, acaba por perceber em função da nova realidade de que a minha candidatura mexeu com o processo e que pode ser uma surpresa ao ganhar estas eleições.

Já tem o apoio de jogadores ou ex-jogadores internacionais com grandes carreiras no futebol?

No futebol, os jogos não se ganham com nomes e só se ganham no fim. Espero ganhar esta eleição com uma boa equipa, porque é no fim que os delegados vão fazer a sua escolha. Comecei há oito dias e, até agora (domingo, 23 de Outubro) fui o único candidato que apresentou o seu programa, os pressupostos de candidatura, os seus compromisso e a estratégia que quer para o futebol português. Isto significa bem a preparação que temos.

Significa também que não é uma decisão de dias.

Há muito tempo que se pensava nisso, mas não estava a pensar sequer nas questões estratégicas do futebol. Antes de me reunir com as pessoas que me convidaram, voltei a pensar durante um dia em futebol. Julgo que na apresentação das minhas ideias às pessoas que me convidaram consegui convencê-las.

Que benefícios pode ter a sua eleição para o futebol do distrito de Viseu?

Eu quero ser presidente da federação e totalmente isento no exercício das minhas funções e serão todos iguais neste processo. A única vantagem que Viseu poderá ter é ter um beirão como presidente da Federação Portuguesa de Futebol.

Qual é a sua ideia sobre os actuais e os futuros quadros competitivos?

Uma das prioridades da minha candidatura é a reformulação dos quadros competitivos. Desde logo no diálogo que deve haver com a Liga Portuguesa de Futebol visto que é responsável pela organização das competições profissionais, mas também a reformulação dos quadros competitivos não profissionais e, depois, um diálogo profundo com as associações distritais no que diz respeito aos campeonatos distritais incluindo a este nível os escalões de formação. Também defendo a valorização da Taça de Portugal, mas aquilo que importa nesta altura dizer é que procuraremos encontrar soluções para que se dê resposta à actual situação financeira do país, procurando proximidade, uma sadia rivalidade e a competitividade. Estas serão as três palavras-chave da reformulação dos quadros competitivos em Portugal, para atrair mais pessoas e para rentabilizar os recursos que existem. É prematuro falar sobre a organização em si de cada uma das competições.

Os clubes podem ficar convictos que, se for eleito, vai ser tudo repensado?

Uma nova equipa na federação vai ter que avaliar tudo o que foi feito até agora e dialogar com as estruturas respectivas para encontrar soluções.

Que estratégias tem para desenvolver o futebol não profissional, e também para as próprias selecções?

Nas minhas prioridades está um capítulo destinado às selecções nacionais, porque são a imagem do futebol nacional do ponto de vista internacional. Estamos a falar das melhores selecções do mundo em todos os escalões e, portanto, irão ter um papel central nesta estratégia com reforço do apoio logístico e financeiro, com um seleccionador/treinador português a tempo inteiro e contratado por ciclos e, neste domínio, também a construção no Vale do Jamor, da casa do futebol nacional aproveitando as magnificas infra-estruturas que existem naquele espaço no concelho de Oeiras. Face até às circunstâncias financeiras do país, devemos aproveitar os excelentes equipamentos que existem e fazer não a casa das selecções, mas uma casa do futebol nacional, onde todo o futebol tenha o seu próprio espaço. Na nossa estratégia, as selecções têm um papel fundamental, porque são a visibilidade do futebol nacional e é através delas que a federação tem uma das fontes de financiamento mais importantes que é a participação nos campeonatos da Europa e do Mundo. Temos uma outra prioridade central, que é um plano de desenvolvimento para o futebol português e que passa por voltar a colocar o futebol no centro do desporto das nossas crianças e dos nossos jovens, através de um programa integrado. No fundo, desenvolver o futebol de rua, o futebol de 11, o feminino, o futsal, aproveitando muitos jogadores e muitos treinadores desempregados e antigos árbitros que podem dar um contributo excepcional.

Onde está a pensar conseguir recursos financeiros para colocar em prática este plano?

Assumi o compromisso público de retirar uma percentagem das receitas que estão anualmente consignadas em relação ao campeonato da Europa e ao campeonato do mundo, dos jogos da selecção em Portugal, das verbas que são transferidas do Instituto do Desporto de Portugal e dos patrocinadores oficiais, retirar uma verba que fique consignada no orçamento anual da federação, de forma a colocar este plano em funcionamento. É um compromisso. É uma opção estratégica e politico desportiva em relação ao que queremos fazer num futuro próximo.

Qual é a opinião sobre o actual treinador nacional, Paulo Bento?

Uma excelente opinião. Tem feito um trabalho muito positivo e merece da minha equipa total confiança. Não tenho dúvida nenhuma que vai conseguir este objectivo importante de qualificar Portugal para o campeonato da Europa.

Qual é a sua perspectiva de desenvolvimento para o futebol feminino?

Dentro do plano de desenvolvimento do futebol português, conseguir que mais mulheres possam jogar futebol. Se conseguirmos alargar esta base de praticantes significa ter mais clubes e mais competição, com o futebol feminino a crescer de uma forma mais sustentada.

E no Futsal?

O que queremos neste domínio é fazer dela a maior modalidade de pavilhão em Portugal. O andebol e o basquetebol vão ter que perceber que o futebol é a paixão do nosso povo e o gosto das nossas crianças e dos jovens.

O que pensa da lei de base do sistema desportivo e do papel das associações de futebol em Portugal?

Passou a imagem na opinião pública de que este novo regime tinha como objectivo retirar o poder das associações distritais em relação às assembleias-gerais da FPF e desta forma distribuir de forma mais equitativa as respectivas percentagens de votação. Mas quando verifico o que vai acontecer na próxima assembleia-geral eleitoral, dou conta que as associações por si só poderiam eleger o futuro presidente da Federação Portuguesa de Futebol.

É necessária uma melhor distribuição das equipas pelas diferentes séries, para evitar que uma equipa de Viseu, como acontece, tenha por exemplo que ir jogar ao Algarve?

A proximidade geográfica é fundamental para encontrar quadros competitivos que possam ser ajustados a essa realidade geográfica e que promovam a competitividade. Depois, uma coisa importante, é a rivalidade saída, porque permite paixão, permite que as pessoas vão aos estádios e permite que o futebol seja o que todos gostamos.

Faz tudo a “pensar futebol”?

No final do dia faço uma reflexão natural sobre aquilo que fui capaz de fazer e sobretudo se me senti realizado e uma pessoa feliz.

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