Protestos e repressão no Médio Oriente e Norte de África “devem continuar em 2012”, antecipa Amnistia
A violência e a repressão “deverão continuar a assolar o Médio Oriente e o Norte de África em 2012”, antecipa a Amnistia Internacional (AI), em relatório hoje divulgado sobre os efeitos da chamada Primavera Árabe.
No relatório “Ano de rebelião: o estado dos direitos humanos no Médio Oriente e no Norte de África”, a AI revê “os drásticos acontecimentos” que afetaram estas regiões no ano passado e estima que os confrontos continuem, “a menos que os governos da região e as potências internacionais despertem para a dimensão das mudanças que lhes são exigidas”.
No documento de 80 páginas, a organização descreve “como os governos de toda a região têm recorrido à violência extrema na tentativa de resistir aos pedidos, sem precedentes, 1/8das populações civis 3/8 por reformas fundamentais”.
Reconhecendo que “os movimentos de protesto na região não mostraram sinais de quererem abandonar os seus objetivos ambiciosos ou de quererem aceitar reformas incompletas”, a AI está, porém, preocupada com a reação dos regimes postos em causa.
“Com raras exceções, os governos têm falhado em reconhecer que tudo mudou”, considera Philip Luther, diretor interino da Amnistia Internacional para o Médio Oriente e o Norte de África, citado no relatório.
“Os movimentos de protesto em toda a região liderados, em muitos casos, por jovens e onde as mulheres desempenham papéis centrais, têm-se revelado surpreendentemente resistentes face à repressão, por vezes, implacável”, avalia o documento.
O relatório analisa com detalhe os casos de Egito, Tunísia e Líbia.
Apesar das promessas das forças armadas em “cumprir as exigências” do movimento civil egípcio, a Amnistia constata “uma série de abusos, em alguns aspetos, piores do que os ocorridos sob o governo de Hosni Mubarak”, o presidente deposto. E receia que em 2012 “possam surgir novas tentativas” por parte dos militares “de restringir a capacidade dos egípcios de se manifestarem e de expressarem livremente as suas opiniões”.
Desde a deposição do anterior regime, na Tunísia, verificaram-se “melhorias significativas em matéria de direitos humanos, mas, um ano depois, muitos consideram que o ritmo das mudanças tem sido lento, com as famílias das vítimas da revolta ainda a aguardarem por justiça”, sublinha a AI.
A “capacidade das novas autoridades” líbias para “controlarem as brigadas armadas” que ajudaram a depor Muammar Kadhafi, entretanto assassinado, é questionada pela AI, realçando que “os graves abusos” cometidos contra o anterior regime “raramente foram punidos”.
A organização refere-se ainda a outros “governos que continuam determinadamente agarrados ao poder”.
As forças armadas e os serviços secretos sírios “têm sido responsáveis por um padrão de assassinatos e tortura que podem ser considerados crimes contra a humanidade”, sustenta a AI, criticando ainda “o impasse” na situação política no Iémen.
No Bahrein, “no final do ano, continuava por demonstrar a determinação do governo em implementar as amplas recomendações” de um relatório independente realizado por peritos internacionais sobre os abusos relacionados com as manifestações civis.
Os protestos prosseguem ainda na Arábia Saudita, apesar da “repressiva lei antiterrorismo” adotada na monarquia, e no Irão “o governo continuou a sufocar a oposição, aumentando as restrições à liberdade de informação”.
Mas as críticas da AI não se ficam pelos Estados em convulsão — “a resposta aos acontecimentos de 2011 por parte das potências internacionais e dos organismos regionais, como a União Africana, a Liga Árabe e a União Europeia, tem sido inconsistente”.




